sexta-feira, 11 de novembro de 2011

PASSAGEM

PASSAGEM


            Ela caminhou de um lado para o outro incessantemente, tinha dores, contrações, mal conseguia andar. No seu ventre o fruto da vida, o amor materializado. Pronto para a vida. Ele também se preocupou, amparou-a com afetuosidade, encheu-a de coragem porque ele sabia que aquele momento era magnificente abençoado por Deus e Ele certamente estaria vos protegendo o tempo todo.
            Naquela madrugada escura veio o primeiro choro da criança, em seguida o silencio profundo, lúgubre, aterrorizador. Nossa mãe nos deixou, Não sabíamos o que fazer, nem nosso pai imaginou que nossa mãe partisse daquela maneira. Ele soluçava baixinho para que não percebêssemos, em vão. Éramos muito pequenos, mas podíamos entender o que significava a morte de nossa mãe. Dona Jerônima, a parteira corria pela casa cuidando de nós e do bebê. Aquela interminável madrugada marcou completamente nossas vidas, podia ter sido tudo diferente, mas Deus quis assim.
            Na missa do sétimo dia de falecimento, fomos todos, a igreja, minhas irmãs mais velhas seguravam nas mãos das irmãs mais novas, nosso pai segurava em minha mão e na do meu irmão, tia Tereza carregava o Orlando em seu colo o Bebê estava enroladinho nos braços de D. Jerônima. Lembro - me bem que nosso pai deixara a barba por fazer, tinha o olhar mais triste, quase não falava com as pessoas, ouvia em silêncio os parentes e amigos dizerem: Joao não sofra tanto, siga a vida, seus filhos precisam muito de você.  Nossas vidas se partiram em cacos, estávamos arrasados. Naquele dia nosso bebezinho foi com a tia Zizinha e o tio Dico para Piracema. Eles o receberam e o criaram com todo o amor do mundo. Muitas pessoas foram solidárias com a nossa família. A dona Mariquita se prontificou a fornecer roupas de sua loja quando fosse preciso. A tia Tereza esteve sempre muito presente cuidando de todos nós, ensinava as meninas a cuidarem da casa a fazerem comida, também rezávamos juntos ao anoitecer. As noites eram longas, silenciosas desoladoras. Muitas noites, eu ouvia os soluços de nosso Pai e de nossas irmãs. Meu irmão Zitinho também ouvia
 – Eles estão chorando.
- Durma irmão – dizia – lhe.
Passados alguns meses, após a morte de nossa mãe, chegaram a nossa casa alguns homens, meu pai foi recebê-los na porteira da entrada. Eram da cidade chegaram em um automóvel, estavam bem vestidos. Conversaram longas horas, não entendíamos bem o que falavam, mas dava para notar que se tratava de dinheiro. Depois que foram embora ouvi meu pai dizendo para a tia Tereza que eles eram do banco, e estavam ali para tratarem em receber o empréstimo que ele fizera ao banco.
- Como receber o tal empréstimo agora, se o mesmo demorará a vencer! – Repudiava tia Tereza.
- Com a morte da Docarmo, teremos que fazer o inventário das terras, daí a preocupação do banco – falava meu pai.
- Ainda lhe restará a metade das terras, o gado, as colheitas que estão por vir! Não é justo virem falar em dinheiro com você neste momento tão difícil para todos nós, ademais sua dívida não é tão alta a ponto de causar preocupação.
            Tia Tereza fora uma mãe para nós, permaneceu em nossa casa por uns dois anos seguintes, desfiava seu rosário todas as noites pedindo proteção ao menino Jesus de praga e a nossa senhora aparecida. Quando nosso pai precisava ir à cidade, ao banco cuidar dos negócios, ela não arredava pé, cuidava de todos com o maior carinho de uma tia. Em uma tarde, após retornar da cidade meu pai disse a ela que teria que vender o gado e a lavoura para pagar ao banco.
            - O gado é a única fonte de renda que tem para sustentar sua família! Como faremos se vender tudo? E o leite para as crianças? Como sabes a lavoura não lhe rende o suficiente para o sustento.
Nada adiantou a revolta da tia Tereza, o gado foi vendido, todos, incluindo os bois que puxavam a colheita.  Mais tarde nosso pai vendeu a colheita, foi necessário para saldar a dívida com o banco. Ficamos apenas com algumas sacas de arroz, nada mais. Os campos ficaram desnudos sem os animais, as tulhas vazias, quase não restaram cereais. O Sr. Zezito Vilela no ato de extrema bondade e benevolência mandou para o nosso pai, três vacas leiteiras para nos fornecer o leite de cada dia. A ausência de nossa mãe nos emudecia, a tristeza se fundia com a quietude, os dias eram longos as noites demasiadamente sombrias. Nosso pai havia plantado uma enorme lavoura de batata doce do outro lado do riacho. No inverno suas folhagens resplandeceram nos camalhões. Todas as manhãs, nós o acompanhávamos para colher suas folhas. Corríamos saltando sobre o orvalho. Ele sempre nos dizia: - Cuidado com cobras, olhem por onde pisam! Todos os dias fazíamos o mesmo caminho em direção aos batatais, mas a recomendação de nosso pai era sempre a mesma. Não pisem nas leiras! Colham as folhas mais novas! – Dizia – ele.
Somente ele colhia as batatas, e nós as folhas.  Comíamos as folhas refogadas com feijão e batatas cozidas ou assadas. Arroz somente aos domingos ou quando chegassem visitas. Os batatais que nosso pai plantava, fora a nossa base alimentar por vários anos. As dificuldades foram medonhas, mas éramos unidos, entendíamos a situação sabíamos que era tudo passageiro assim como foi a passagem precoce de nossa mãe. Jamais ouvimos nosso pai reclamar, embora sentisse triste por não nos dar uma alimentação que ele mesmo achava necessário. Cuidou intensamente de todos nós, abdicou-se da vida para ficar junto a todos. Amou-nos do seu jeito, um amor tenro silencioso, incondicional. Por vez nós também o amamos muito, o respeitamos, ouvimos cada palavra que nos dizia, pois sabíamos que ele se doou incondicionalmente a todos nós.


                        Antonio de Paula.